O grupo era constituído por três professores do ensino superior, uns oito alunos da FBAUP (Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto) mais quatro professores do ensino secundário e uma bibliotecária. Íamos actuar em diferentes sectores, o grupo do qual eu fazia parte, ficava na ENAV( Escola Nacional de Artes Visuais), para criar ou fazer a actualização de cursos já existentes e a respectiva formação de formadores, outro grupo ia desenvolver a sua actividade no museu, outros na biblioteca municipal e um grupo de dois professores com os alunos da FBAUP iriam actuar num centro comunitário.
Uma das coisas que me tinha sido dito antes de partir para Maputo, é que tínhamos direito à viagem oferecida pela LAM (Linhas Aéreas de Moçambique) e dormida, mas as refeições, deslocações e tudo o mais seria por nossa conta, afinal cá também tínhamos que comer. A ideia, era dar o máximo que pudéssemos. Trabalho de missionário. Confesso que a ideia me apaixonou
Fizemos a viagem durante a noite e mal chegamos fomos logo encaminhados par os nossos locais de trabalho.
Eu e mais dois professores chegamos à ENAV onde fomos recebidos festivamente pela Directora e um grupo de professores que, no ano anterior já tinham trabalhado com esta equipa Mostraram-me a escola, apresentaram – me os professores que iriam fazer formação comigo e entretanto chegou a hora de almoço.

Pelo que percebi durante a visita, a cantina da escola, local escuro e sem grandes condições de higiene, não funcionava, soube depois que por falta de verbas, mas a Directora, uma pessoa fantástica, autêntica missionária que fazia milagres, com os parcos recursos que tinha, lá arranjou a dar-nos de almoçar durante toda a estadia, a nós e aos professores com quem estávamos a trabalhar.

Quando entrei no espaço reservado à cantina, confesso que fiquei a olhar para a comida sem saber bem o que fazer. Os outros professores que estavam comigo e que já conheciam a escola, segredaram-me, come senão ficas com fome, amanhã já te parece tudo bom, é o que há. O arroz parecia uma pasta e o peixe que era pequeno, estava partido em 3, a cabeça, o rabo e a posta do meio, a única que tinha alguma coisa para comer, era um bocado para cada um. Eu vi que os meus amigos ou não se serviam de peixe ou tiravam a cabeça, o que permitia aos professores da ENAV ficar com os bocados melhores e até comer dois pedaços. Para eles era óptimo porque comiam de graça, percebi depois que em casa as coisas eram bem piores. Às vezes a cozinheira lá nos presenteava com uma refeição melhorada e então era uma festa.
No intervalo do almoço dava uma corrida ao mercado local com as professoras da ENAV, comprávamos frutos que eu desconhecia, legumes e novos e temperos, as vendedeiras muito simpáticas queriam que eu experimentasse tudo.
O mercado era pobre, muito cheio e com uma enorme falta de higiene, mas naquele contexto eu esquecia completamente tudo, a minha sensibilidade artística exultava com todo aquele colorido, estava simplesmente apaixonada por tudo quanto via.
Eu e mais três professores, ficávamos num apartamento que nos tinha sido cedido pela embaixada portuguesa, e à noite quando nos juntávamos mortos de cansaço, fazíamos o nosso jantar, trocávamos as experiências do dia e planificávamos as actividades para o dia seguinte, eram momentos muito agradáveis e muito enriquecedores.
Por vezes, ao fim do dia tínhamos recepções organizadas pela embaixada onde confraternizávamos com entidades locais e estudantes da área artística.
Outras vezes, juntávamo-nos para jantar com individualidades do mundo artístico e cultural de Maputo. Foi nesses jantares que tive o privilégio de confraternizar com o escritor e biólogo Mia Couto e o pintor Malangatána. Foram momentos inesquecíveis, o ambiente africano , a companhia insuperável, o franco convívio, as estórias que o Mia Couto a propósito de tudo contava.

Um dia fomos todos até à comunidade onde o outro grupo trabalhava. Todo o mundo nos fez uma festa, os miúdos corriam à nossa volta entusiasmados, davam abraços, beijos e pediam para tirar fotografias. Um grupo de músicos e dançarinos locais presenteou-nos com uma magnífica actuação que me deixou em êxtase. O grupo já era repetente nestas aventuras em Moçambique, para mim é que tudo era novidade.

Nunca mais posso esquecer as viagens, de deixar um pintor louco, o colorido fantástico das mulheres e crianças que percorriam os caminhos com trajes de cores garridas transportando cestos de frutos à cabeça, visões inesqueciveis.
Foram tempos fantásticos, vim outra, aprendi mais do que ensinei e o que me ficou foi tão forte, deixou-me uma marca tão profunda, que não há dia em que não me lembre de como lá fui feliz.